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87 - Ladrão de Relógios

 

 

 

Teodora Gomes Fiuza, conhecida como Dona Dozinha, e minha avó Maria Amélia emprestam seus nomes para escolas de Várzea Alegre. As duas professoras  foram homenageadas em vida pelo prefeito José Iran Costa por conta da contribuição com o ensino da cidade. Mesmo experimentando intensas dificuldades, sempre espalharam esperança, solidariedade e bom humor e semearam exemplos de lucidez e fortaleza para todos que tiveram o privilégio de com elas conviver.

Recentemente descobri que as duas adoravam relógios e sofreram com a perda desses objetos. Minha avó foi vítima de um estelionatário em Fortaleza que conseguiu enganá-la e levar o relógio dourado que ganhara do seu filho Paulo Danúbio. Já dona Dozinha se queixava do desaparecimento de um relógio de ouro que fora do seu pai, guarda civil. Ela abordava qualquer um que chegasse à casa de sua filha Brazão e indagava sobre o precioso objeto.

Até nos últimos dias de vida Dona Dozinha manifestou a esperança de recuperar o surrupiado relógio de ouro. Quando uma de suas netas veio de Portugal passar uns dias de férias em Várzea Alegre, dona Dozinha, com seus 102 anos de idade, sempre atualizada, falou:

         - Klébia Rejane, agora eu vou encontrar o relógio de papai. Coloquei um aviso na internet.

        

 



Escrito por Flávio às 00h09
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86 - Terezinha Água e Vinho

 

 

         O cine São Luiz também marcou a vida da minha mãe. Ao ler a postagem “lanterninha”, ela recordou detalhes da inauguração daquele belíssimo cinema. Era 1958 e Fortaleza ainda contava com cerca de quinhentos mil habitantes. Pela terceira vez Terezinha se mudava temporariamente para a Capital Alencarina. Aldair estava grávida de Maria Amélia e novamente precisou do auxílio e apoio da irmã mais nova.

         Naqueles dias, a cidade vivia um clima festivo por conta da nova casa de cinema do empresário cearense Luiz Severiano Ribeiro. Ainda pouco acostumada com as novidades da capital, Terezinha ficou deslumbrada com a possibilidade de assistir a um dos filmes da mostra de inauguração. Assim, levada por seu irmão João Costa, a menina foi ver a emocionante película espanhola Marcelino Pão e Vinho.  

         Na famosa Praça do Ferreira, ainda na fila formada em frente à bilheteria do cinema, percebeu que aquele mundo era bem diferente da realidade da sua pequena Várzea Alegre. Os homens trajavam paletós bem cortados; as mulheres esbanjavam elegância em suas roupas. Ao contrário da opulência dos presentes, a pequena garota usava um modesto vestido de tecido comum na época - túlio, que seu pai ganhara em uma rifa.

          A história do menino criado por monges franciscanos, a imponência e a sofisticação do novo cinema e a aparência nobre dos expectadores permaneceram na sua imaginação.

          Depois de vários meses em Fortaleza, voltou para Várzea Alegre. No reencontro percebeu que uma amiga, também adolescente, crescera bastante. Embora não tenha aumentado sua estatura no tempo que permaneceu na capital, a pequena Terezinha logo se conformou, afinal vivera como gente grande na inauguração do tradicional Cine São Luiz.

 



Escrito por Flávio às 00h43
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