92 - Lagosta

Depois de estudar alguns anos no Colégio Agrícola de Lavras da Mangabeira, Paulo Danúbio se mudou para Fortaleza no início da década de setenta. No Liceu do Ceará, foi cursar o primeiro ano do ginasial – hoje sexta série do ensino fundamental. O aluno, que mais tarde se formou em biologia pela Universidade Estadual do Ceará e se tornou um bem conceituado professor, adorava as aulas de ciências. Já nos primeiros dias, logo que chegou ao tradicional colégio da Capital Alencarina, buscou participar ativamente das aulas. Certo dia, a professora de ciências, falando sobre os aspectos alimentares e nutrição dos crustáceos, fez uma pergunta aos alunos: - Quem aqui da sala já comeu Lagosta? Para a surpresa da mestra, o aluno Paulo Danúbio foi o único a levantar o braço. - Mas Paulo, você acabou de chegar do interior, não sabia que os crustáceos faziam parte da culinária de Várzea Alegre. - Desculpa, professora, eu não entendi direito. Lagosta era uma jumentinha que vivia lá pelos tabuleiros perto do colégio agrícola das Lavras.
Escrito por Flávio às 13h35
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91 - Prendendo a Bola

É perceptível e louvável o atual esforço da polícia para se aproximar da população. O modelo da segurança comunitária, onde os policiais agem com o apoio e em favor dos cidadãos, espalha-se entre as corporações do país. A cada dia apresentam experiências inovadoras e vitoriosas que atendem os reclames e anseios da sociedade. Mas, na década de setenta, em Várzea Alegre, a polícia possuía uma missão e um inimigo pouco comum: apreender bolas de indefesas crianças. Impossível descobrir qual o potencial ofensivo de uma bola ou da infração praticada por meninos que jogam na rua. Como não havia risco de acidentes, pois a frota de veículos da cidade era diminuta, certamente a operação policial surgiu em decorrência de algum comodista que se chateou com a alegria dos garotos brincando pelas calçadas. Contudo, numa estreita pracinha que separava a Rua Duque de Caxias, atual Calçadão Antônio Alves Costa, bem no centro comercial, todo final de tarde, eu, Júlio, Geraldo Filho, Fernando, Paulo Roberto, Zé Wilton, Serginho e outros garotos desobedecíamos a ordem policial. Descobrimos uma forma de não interromper nossas partidas. Jogávamos descalços e com a bola mais barata do mercado, comprada na bodega de Seu Nenê, localizada bem ao lado da improvisada quadra de futebol. Se a polícia surgisse de repente e apreendesse nossa bola, adquiríamos imediatamente outra. O único inconveniente da estratégia era que, em decorrência da baixa qualidade da pequena bola, do estado precário da improvisada quadra, e, principalmente, da pouca habilidade dos jogadores, todo dia alguns voltavam pra casa com a “cabeça do dedo” arrancada.
Escrito por Flávio às 01h13
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90 - Esfriando o sertão

Projetos arquitetônicos com pé direito e cumeeira altos formam uma tendência que volta ao sucesso nos atuais empreendimentos de luxo. Esses detalhes, aliados a existência de várias portas e janelas, permitem a entrada de luz natural e garantem a boa ventilação do ambiente, diminuindo o consumo de energia elétrica. Com algumas dessas características, o casarão situado na antiga Rua Major Joaquim Alves, em frente à igreja matriz de São Raimundo Nonato em Várzea Alegre, antiga residência do Padre José Gonçalves, por várias décadas também foi habitado pelo Coronel Dirceu de Carvalho Pimpim e sua família. Para permitir a ventilação e amenizar o forte calor cearense, a grande casa, construída no início do século 20, ostenta exatamente cento e nove portas e janelas. Na época, não havia energia elétrica, e, por conseguinte a mordomia e comodidade do ventilador e ar-condicionado para amenizar os dias e noites quentes do sertão. Maria Francalino de Souza, conhecida como Mãezinha, responsável pelos afazeres domésticos do casarão, ainda cedo da manhã iniciava a abertura das portas e janelas. Eram tantas que, quando Mãezinha concluía sua tarefa, seu Alberto e Zé Goteira, outros funcionários da casa, já haviam começado a fechar as portas e janelas e recolocar as centenas de traves e ferrolhos da conhecida residência do Coronel Dirceu Pimpim.
Escrito por Flávio às 10h59
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89 - Zé Gatinha*

Nos palcos do futebol circulam outras estrelas além dos jogadores - protagonistas do esporte. Ao lado do campo, próximo ao banco de reservas, os técnicos gritam, se esgoelam, buscando transmitir informações para os seus comandados e também aparecer nas transmissões televisas. Tanto que hoje em dia, profissionais como Vanderlei Luxemburgo, Muricy Ramalho, Felipão e Dunga recebem salário e gozam de prestígio comparáveis aos melhores e mais famosos atletas. Porém nem só nos grandes campeonatos do sul do país os professores do futebol merecem destaque. Nos campos secos e batidos do sertão cearense já surgiram grandes técnicos. Ainda em 1968 Várzea Alegre formou uma inesquecível seleção, vencedora de vários disputas com as cidades vizinhas. Sob o comando da vitoriosa equipe, destacava-se José Adálio da Silva, conhecido como Zé Gatinha. O técnico, de pequena estatura, mesclava seu conhecimento futebolístico com o seu estilo bem humorado e brincalhão. Pouco antes de toda partida, no interesse de motivar os jogadores, no meio do campo, Zé Gatinha reunia a seleção varzealegrense e realizava a preleção: - Olha, moçada, vamos jogar na bola. Mas sem esquecer que do pescoço pra baixo tudo é canela. * baseado no vídeo da MV Produções, com locução de Souza Sobrinho
Escrito por Flávio às 13h38
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88 - Cabeça de Porco

No interessante vídeo da MV Produções, coletânea histórica e cultural de Várzea Alegre, Souza Sobrinho registra o trabalho de vários artistas, entre os quais Pedro de Souza, Chico de Amadeu, Bié, Zé Clementino, Serginho Piau e Bidin. Além disso, relembra passagens pitorescas de espirituosos filhos da Terra do Arroz, como o sempre enraivado Mundin da Varjota. É importante ressaltar que o nacionalmente famoso seu Lunga de Juazeiro é uma moça de polidez e delicadeza perto do que foi o nosso Mundin. Em uma sexta-feira à tarde, Mundin da Varjota chegou em casa trazendo do mercado de carnes a cabeça de um porco. De imediato, entregou a compra à sua esposa Cecília, já imaginando o saboroso cozido e a apetitosa farofa que sairia na janta. No entanto, foi surpreendido com a pergunta da mulher: - Mundin, o que é peu fazer com a cabeça desse poico ? Antes que a dedicada Cecília fechasse a boca, o enfezado e impaciente Mundin já foi respondendo: - Ponha no chiqueiro, dê muito mii e espere ele engordar pra gente comer.
Escrito por Flávio às 15h19
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